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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Diadorim realiza Campanha "16 dias de ativismo na UNEB pelo Fim da Violência contra as Mulheres"

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A “Campanha 16 dias de Ativismo na Uneb-Escola pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, realizada pelo Núcleo de Gênero e Sexualidade – Nugsex DIADORIM e pela Secretária da Educação do Estado da Bahia - SUDEB/SEC, com o apoio dos movimentos sociais, tem como objetivo desenvolver estratégias didático-pedagógicas de combate às discriminações de gênero, raça e sexualidades através de ações extensionistas nos 24 campi da Universidade do Estado da Bahia e nas escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado da Bahia.   Realizada desde 2006, o tema da Campanha em 2013 é “Estado Laico=Educação para a diversidade”, por compreendermos que a Educação Pública, assim como o Estado, precisam atuar de forma laica, isentos de orientação religiosa ou de interesses que, em última instância, repousam sobre princípios religiosos que favorecem uma ou outra posição, evitando a discriminação e exclusão social de mulheres e do segmento LGBT - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais no âmbito escolar, assim como nos espaços públicos.

Cartaz da campanha de 2013


Confira algumas das atividades da programação:
25/11/2013, das 8h às 12h - Videoconferência sobre o tema da Campanha (Estado Laico = Educação para a Diversidade) - Abrangência nas 33 Diretorias Regionais de educação (Direc)Composição da mesa: Profª Amélia Maraux, Ana Naiara Malavolta (Liga Brasileira de Lésbicas) e Profª. Jordanna Castelo Branco (Observatório da Laicidade da UFRJ)
9 e 10 de Novembro de 2013 - II Workshop Nacional de Educação, Gênero e Diversidade Sexual, do Fórum Nacional de Gestores em Políticas LGBT (FONGES). Presença da Professora Bruna Irineu, Coordenadora do Núcleo Sexualidade, Corporalidades e Direitos da Universidade Federal do Tocantins (UFT)
Rodas de Conversa nas Escolas, UNEB e Comunidade sobre o tema: “Estado Laico = Educação para a Diversidade
Acesse o blog da campanha: http://campanha16diasdeativismonauneb.blogspot.com.br/
Curta a Fanpage no Facebook:
https://www.facebook.com/campanha16diasuneb2013?fref=ts
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quarta-feira, 6 de março de 2013

Atividades dos grupos filiados ao Fórum Baiano LGBT pelo Dia Internacional da Mulher

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Quadro de atividades das entidades filiadas do Fórum Baiano LGBT no Mês da Mulher:

Entidade
Atividade
Data
Local
Entidades parceiras
LESBIBAHIA
KIU!
NugSex DIADORIM/UNEB
Roda de Capoeira
Oficina de Defesa Pessoal
08/03
Instituto
Nzinga de Capoeira Angola
Instituto Nzinga de Capoeira Angola
GRUPO SAPHOS ILHÉUS
Palestras,roda de conversa e testagem
06 a 09/03
Bairros da cidade e
Uruçuca
ARCROETSULBA, CÁRITAS, 
RNP/ILHÉUS
Grupo Humanus-LGBT
Itabuna
Distribuição de coração, fita-logomarca da prevenção com um coração
08/03
Praça Adami
Gapa-Itabuna
Grupo GRUPO HUMANIZAR - Alagoinhas
Apoio na divulgação da campanha de testagem rápida para HIV e na palestra promovida e realizada pela Coordenação Municipal de DST
Festa: Noite Lésbica
Distribuição de Distribuição de panfletos sobre as novas campanhas lançadas pela OGHA: Doação de Rins e de órgãos "Post-Mortem”
08/03
09/03
Calçadão em frente à Prefeitura Municipal, Centro
(em frente ao HEMOBA) e da Secretaria da Saúde-SESAU
Pousada Frei Leão
Coordenação de DST/AIDS/
Secretaria Municipal da Saúde-SESAU e a 3ª DIRES
Boite Gloss
Coletivo LGBT da UESC
intervenções teatrais, panfletagem, mesa redonda e exposições sobre violência contra a mulher
08/03
diversos bairros de Itabuna
Coletivo 
Marcha das Vadias; Coletivo Feminista Maria Quitéria e o Ciclo de Encontro 
das Margaridas
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Fórum Baiano LGBT emite nota de repúdio contra a nomeação do Deputado Federal Marco Feliciano

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NOTA DE REPÚDIO CONTRA A INDICAÇÃO
DO DEPUTADO FEDERAL MARCO FELICIANO (PSC-SP)
PARA A PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS
E MINORIAS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS



O Fórum Baiano LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), entidade estadual que reúne 84 grupos de todo o Estado que lutam por direitos humanos e por direito à livre orientação sexual e identidade de gênero, manifesta seu repúdio contra indicação do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

O Fórum Baiano LGBT compreende que declarações racistas e homofóbicas perpetradas pelo parlamentar em razão de suas convicções religiosas amplamente divulgadas pela mídia nos últimos meses, entre outras posições contrárias aos direitos humanos por ele assumidas, descredencia o referido deputado para ocupar importante função democrática.

Por reiteradas vezes, o deputado Marco Feliciano ostentou censurável racismo em meio a pregações religiosas veiculadas na TV e amplificadas pela internet. São também de autoria do deputado assertivas não menos lastimáveis em que afirma que as relações entre pessoas do mesmo sexo levam ao ódio, ao crime e à rejeição, bem como que o casamento igualitário é uma porta aberta ao caos.

Seus posicionamentos frontalmente contrários à defesa dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, bem como sua postura racista, levam-nos a entender que, tendo Marco Feliciano como presidente, a CDHM não estará aberta ao diálogo com segmentos minoritários e marginalizados da sociedade que, a priori, deveria defender.

Desse modo, o Fórum Baiano LGBT conclama o VOTO CONTRÁRIO A INDICAÇÃO DO DEPUTADO FEDERAL MARCO FELICIANO (PSC-SP) PARA A PRESIDÊNCIA DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS.


Salvador, 5 de março de 2013
Colegiado do Fórum Baiano LGBT


FÓRUM BAIANO LGBT e suas 84 filiadas:
  1. Adé Diversidade (estadual)
  2. Argila - Grupo Gay de Conceição do Almeida
  3. ASMUSASDECA – Casto Alves
  4. Associação Beco das Cores/ABC LGBT – Salvador
  5. Associação CACTUS LGBT de Irecê
  6. Associação da Parada Gay de Feira de Santana/APGFS – Feira de Santana
  7. Associação das Travestis de Camaçari/ASTRACAM – Camaçari
  8. Associação de Gêneros e Raça/AG8SAJ – Santo Antônio de Jesus
  9. Associação de Mulheres Amigas de Cruz das Almas / AMA – Cruz das Almas
  10. Associação de Travestis de Salvador – ATRAS
  11. Associação em Defesa do Amor/ADAMOR – São Sebastião do Passé
  12. Associação LGBTT Laleska di Capri – Salvador
  13. Associação Pro-Homo – Salvador
  14. CA de História Luiza Mahin /UFBA(Universitária) – Salvador
  15. Cavaleiros de Shangrilah – Castro Alves
  16. Coletivo LesBiBahia (estadual)
  17. Comitê Desportivo LGBT Bahia (estadual)
  18. Congregação Mãe de Deus – Simões Filho
  19. Diretório Central dos Estudantes/DCE-UFBA – Salvador
  20. Diversidade Amar - São Francisco do Conde
  21. GGB (estadual)
  22. GRITTE - Mata de São João
  23. Grupo Autor da Vida – Ubaitaba
  24. Grupo Caxixis Coloridos de Aratuípe - Aratuípe
  25. Grupo Contra o Preconceito - CIA, em Simões Filho
  26. Grupo de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros de Jequié / LGBTSOL
  27. Grupo Diversidade Alagoinhas/GDA
  28. Grupo Diversidade Sapeaçuense – Sapeaçu
  29. Grupo Felipa de Souza – RMS
  30. Grupo Fênix – Pojuca
  31. Grupo Gay das Residências (GGR) – Salvador
  32. Grupo Gay de Camaçari/GGC – Camaçari
  33. Grupo Gay de Lauro de Freitas – GGLF
  34. Grupo Gay de Ruy Barbosa/GGRB
  35. Grupo Gay de Simões Filho/GGSF
  36. Grupo Homossexual de Periferias/GHP – Salvador
  37. Grupo Humanus – Itabuna
  38. Grupo INTIMUS - Tancredo Neves
  39. Grupo Lésbico Lilás – Lauro de Freitas
  40. Grupo LGBT OMNI – Cruz das Almas
  41. Grupo Liberdade, Igualdade e Cidadania LGBT/GLICH – Feira de Santana
  42. Grupo Livre – Itaberaba
  43. Grupo Olho de Horus – Dom Macedo Costa
  44. Grupo Prisma – Lauro de Freitas
  45. Grupo Realidade Colorida - Camaçari
  46. Kiu! – Coletivo Universitário pela Diversidade Sexual – Salvador
  47. Kizomba Arco-Íris (estadual)
  48. Núcleo de Educação e Promoção à Saúde/NEPSI – Ilhéus
  49. Núcleo de Estudos de Gênero e Sexualidade da UNEB/NUGSEX DIADORIM(estadual)
  50. Organização Homossexual de Alagoinhas/OHGA
  51. Quimbanda Dudu – Salvador
  52. Rede Afro LGBT (estadual)
  53. Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids – Bahia/RNP+ - Salvador
  54. SAPHOS – Ilhéus
  55. Associação dos Renais Crônicos e Transplantados do Sul da Bahia/ARCROETSULBA – Ilhéus
  56. Coletivo Corphus (Universitária) - Teixeira de Freitas
  57. Diálogo e Diversidade Sexual – Salvador
  58. GAMAR – Amargosa
  59. Grupo Adé Diversidade Colibri – Morro do Chapéu
  60. Grupo Dignidade e Diversidade/GDD – Governador Mangabeira
  61. Grupo EROS - Ilhéus
  62. Grupo Fênix - Pojuca
  63. Grupo Gay de Catu - GGCAT
  64. Grupo Gay de Muniz Ferreira - Pedra das Cores
  65. Grupo Gay do Oeste da Bahia/GGOB – Barreiras
  66. Grupo Gay Pérolas Negras - Santo Antônio de Jesus
  67. Grupo Líberos Avante – Dias D'Ávila
  68. Grupo SAD/Sou Assim e Daí? - Candeias
  69. Grupo SAFO – Vitória da Conquista
  70. Movimento de Articulação Homossexual de Paulo Afonso / MAHPA
  71. Projeto Sociocultural Fênix – Salvador
  72. Arco Íris - Grupo LGBTS de Madre de Deus, Ilha dos Frades e Bom Jesus dos Passos
  73. Associação Cultural Graúna – Itabuna
  74. Coletivo Finas de Vitória da Conquista
  75. Coletivo LGBT da UFRB (universitária)
  76. Coletivo Nacional das Juventudes Negras - Enegrecer (estadual)
  77. Diretório Acadêmico de Pedagogia da UFRB
  78. Grupo Gay de Pernambués
  79. Grupo HUMANIZAR-SE – Alagoinhas
  80. Grupo LGBT Glamour - Cruz das Almas
  81. Grupo Pégassus - Dias D'Ávila
  82. Instituto Olho de Piche – Salvador
  83. Movimento de Lésbicas e Bissexuais da Bahia
  84. NUDESC - Núcleo de Desenvolvimento Social e Cultura da Bahia/Salvador
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quinta-feira, 5 de julho de 2012

[ARTIGO] Igualdade, identidades e justiça social - Nancy Fraser

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Historicamente, a luta pela redução das desigualdades se fundamentou na partilha justa da riqueza. Há alguns anos, um novo tipo de demanda articula a igualdade ao respeito às diferenças e minorias e ao combate às discriminações. Podemos pensar na relação dessas concepções, de forma que elas se reforcem reciprocamente?

O “reconhecimento” se impôs como um conceito-chave de nosso tempo. Herdado da filosofia hegeliana, encontra novo sentido no momento em que o capitalismo acelera os contatos transculturais, destrói sistemas de interpretação e politiza identidades. Os grupos mobilizados sob a bandeira da nação, da etnia, da “raça”, do gênero e da sexualidade lutam para que “suas diferenças sejam reconhecidas”. Nessas batalhas, a identidade coletiva substitui os interesses de classe como fator de mobilização política – cada vez mais a reivindicação é ser “reconhecido” como negro, homossexual ou ortodoxo em vez de proletário ou burguês; a injustiça fundamental não é mais sinônimo de exploração, e sim de dominação cultural.

Essa mutação é um desvio que conduzirá a uma forma de balcanização da sociedade e à rejeição das normais morais universais?¹ Ou oferece a perspectiva de corrigir a cegueira cultural associada a certa leitura materialista, desacreditada pela queda do comunismo de tipo soviético, que, cego à diferença, reforçaria a injustiça ao universalizar falsamente as normas do grupo dominante?²

Essas perguntas revelam duas concepções globais de injustiça. Na primeira, a injustiça social resultaria da estrutura econômica da sociedade e se concretizaria na forma de exploração ou miséria. A segunda, de natureza cultural ou simbólica, decorreria de modelos sociais de representação que, ao imporem seus códigos de interpretação e seus valores, excluiriam os “outros” e engendrariam a dominação cultural, o não reconhecimento ou, finalmente, o desprezo.

Essa distinção entre injustiça cultural e injustiça econômica não deve mascarar o fato de que, na prática, as duas formas estão imbricadas e, em geral, se reforçam dialeticamente. A subordinação econômica impede de fato a participação na produção cultural, cujas normas, por sua vez, são institucionalizadas pelo Estado e pela economia.

Corrigir ou transformar?
A solução contra a injustiça econômica passa por mudanças estruturais: distribuição de renda, reorganização da divisão do trabalho, submissão das decisões de investimentos ao controle democrático, transformação fundamental do funcionamento da economia. Esse conjunto, como um todo ou em partes, depende da “redistribuição”. A solução para a injustiça cultural, por sua vez, está em mudanças culturais ou simbólicas: reavaliação de identidades desprezadas, reconhecimento e valorização da diversidade cultural ou, mais globalmente, alteração geral dos modelos sociais de representação, o que modificaria a percepção que cada um tem de si mesmo e do grupo ao qual pertence. Esse conjunto de fatores depende, pois, do “reconhecimento”.

Os dois conceitos divergem na concepção de quais são os grupos que vivenciam injustiças. No sistema em que a prioridade é a distribuição, são as classes sociais no sentido amplo, definidas primeiro em termos econômicos, que sofrem injustiças segundo a relação com o mercado ou com os meios de produção. O exemplo clássico, oriundo da teoria marxista, é a classe trabalhadora explorada, mas essa concepção inclui também grupos imigrantes, minorias étnicas etc. No sistema em que o reconhecimento é prioridade, a injustiça não está diretamente ligada às relações de produção, mas a uma falta de consideração. O exemplo mais comum são os grupos étnicos que os modelos culturais dominantes proscrevem como diferentes e de menor valor, assim como os homossexuais, as “raças”, as mulheres. As reivindicações ligadas à redistribuição exigem, em geral, a abolição dos dispositivos econômicos que constituem a base da especificidade dos grupos, e como consequência desse processo essas reivindicações tenderiam a promover a indiferenciação entre esses grupos. Ao contrário, as reivindicações ligadas ao reconhecimento, que se apoiam nas diferenças presumidas dos grupos, tendem a promover a diferenciação (quando não o fazem performativamente, antes de afirmar seu valor). Política de reconhecimento e política de redistribuição figuram, portanto, em tensão.

Como, nessas condições, pensar a justiça social? Deve-se priorizar a classe em detrimento do gênero, da sexualidade, da raça e da etnia e rejeitar todas as reivindicações “minoritárias”? Insistir na assimilação de normas majoritárias em nome do universalismo ou do republicanismo? Ou será preciso tentar aliar o que resta de impreterível na visão socialista e o que parece justificado na filosofia “pós-socialista” do multiculturalismo?

Há duas formas de acabar com a injustiça. As soluções corretivas, em primeiro lugar, visam melhorar os resultados da organização social sem modificá-la em suas causas profundas. As soluções transformadoras, por outro lado, se aplicam em profundidade às causas: a oposição se situa, dessa forma, entre sintomas e causas.

No âmbito social, as soluções corretivas, historicamente associadas ao Estado de bem-estar social liberal, são empregadas para atenuar as consequências de uma distribuição injusta, deixando a organização do sistema de produção intacta. Durante os dois últimos séculos, as soluções transformadoras foram associadas ao socialismo: a mudança radical da estrutura econômica que sustenta a injustiça social, ao reorganizar as relações de produção, modifica não somente a repartição do poder de compra, mas também a divisão social do trabalho e das condições de existência.

Um exemplo esclarece essa distinção. Os auxílios atribuídos em função dos recursos dos quais dispõe certo grupo, orientado geralmente ao apoio material aos mais pobres, contribuem para cimentar as diferenciações que levariam ao confronto. Assim, a redistribuição corretiva no âmbito social toma a forma, nos Estados Unidos, de ação afirmativa(em geral traduzida por “discriminação positiva”). Essas medidas buscam garantir a minorias uma parte equitativa dos postos de trabalho e da formação, sem modificar sua natureza ou nome. No âmbito cultural, o reconhecimento corretivo se traduz por uma nacionalização cultural, que se esforça por garantir o respeito a essas minorias valorizando, por exemplo, a “negritude”, mas sem alterar o código binário branco-negro que lhe dá sentido. A ação afirmativa pode ser vista, portanto, como uma combinação de política socioeconômica liberal antirracista com política cultural – no caso dos negros – blackpower.

A questão é que essa solução não ataca as estruturas que produzem desigualdades de classe e raciais. As reacomodações superficiais se multiplicam sem limites e contribuem para tornar ainda mais perceptível a diferenciação racial, para dar aos mais desprovidos a imagem de uma classe deficiente e insaciável, que sempre necessita de ajuda e até mesmo da orientação de um grupo privilegiado; muitas vezes, essa interação resulta em tratamento de favor. Assim, uma aproximação que visa reverter as injustiças ligadas à redistribuição pode terminar criando injustiças em termos de reconhecimento.

Combinando sistemas sociais universais e imposição estritamente progressiva, as soluções transformadoras, por outro lado, visam restaurar a todos o acesso ao trabalho, com tendência a dissociar esse elemento da satisfação de necessidades fundamentais. Daí a possibilidade de reduzir a desigualdade social sem criar categorias de pessoas vulneráveis, apresentadas como necessitadas da caridade pública. Tal aproximação, centrada nas injustiças da distribuição, contribui para a solução de certas injustiças de reconhecimento.

Redistribuição corretiva e redistribuição transformadora pressupõem, ambas, uma concepção universalista do reconhecimento, ou seja, a igualdade moral das pessoas. Mas elas repousam em lógicas diferentes no que concerne à diferenciação dos grupos.

As soluções coletivas para a injustiça cultural dependem do chamado multiculturalismo: trata-se de acabar com o desrespeito de identidades coletivas injustamente desvalorizadas, ao mesmo tempo deixando intactos o conteúdo dessas identidades e o sistema de diferenciação identitária sobre o qual repousam. As soluções transformadoras, por outro lado, são habitualmente associadas à desconstrução. Buscam acabar com o desrespeito transformando a estrutura de avaliação cultural subjacente. Ao desestabilizarem as identidades e a diferenciação existentes, essas soluções não se limitam a favorecer o respeito a alguém: mudam as percepções que temos de nós mesmos.

O exemplo das sexualidades desprezadas esclarece essa distinção. As soluções corretivas à homofobia são, em geral, associadas ao movimento gay e buscam revalorizar a identidade homossexual. As soluções transformadoras, ao contrário, se parecem mais com o movimento queer, que busca desconstruir a dicotomia homossexual/heterossexual. O movimento gay considera a homossexualidade uma cultura, dotada de características particulares, um pouco como a etnicidade. Esse “modelo identitário”, adotado em diferentes lutas pelo reconhecimento, pretende substituir imagens negativas de si, interiorizadas e impostas pela cultura dominante por uma cultura própria, que, manifestada publicamente, obteria o respeito da sociedade em seu conjunto. Esse modelo traz avanços, mas, ao sobrepor política de reconhecimento e política de identidade, pode engendrar a naturalização da identidade de um grupo e essencializá-la por meio da afirmação da “identidade” e da diferença.

O movimento queer, ao contrário, aborda a homossexualidade como correlato construído e desvalorizado da heterossexualidade: nenhum dos dois termos tem sentido sem o outro. O objetivo não é mais valorizar uma identidade homossexual, mas abolir essa dicotomia. O movimento gay busca valorizar a diferenciação existente entre os grupos sexuais – como as políticas corretivas de redistribuição do Estado de bem-estar social o fazem para as diferenças sociais –; o movimento queer pretende problematizá-la – como o socialismo e a sociedade sem classes.

A psicologização
Ao tratar a falta de reconhecimento como um prejuízo engendrado de forma autônoma por valores ideológicos e culturais, a corrente identitária oculta seu vínculo com a justiça distributiva e o abstrai de sua relação com a estrutura social. Por isso, muitas vezes seus defensores ignoram a injustiça econômica e concentram seus esforços unicamente na transformação da cultura, considerada uma realidade em si. Por exemplo, esse sistema poderia negligenciar os vínculos, institucionalizados nos sistemas de assistência social, entre as normas heterossexuais dominantes e o fato de que certos recursos sejam negados às pessoas homossexuais. Por outro lado, essa corrente pode interpretar a desigualdade econômica como simples expressão de hierarquias culturais: a opressão de classe decorre, nessa lógica, da depreciação da identidade proletária. Como imagem inversa de um marxismo vulgar que outrora deixava a política de reconhecimento de lado para priorizar a política de redistribuição, o culturalismo vulgar supõe que a revalorização de identidades depreciadas atacaria também as origens da desigualdade econômica.

Ao modelo identitário (corretivo) se opõe o chamado modelo estatutário (transformador): a negação do reconhecimento não é mais considerada uma deformação psíquica ou um prejuízo cultural autônomo, e sim uma relação institucionalizada de subordinação social, produzida por instituições sociais. O objeto do reconhecimento não deveria ser a identidade própria de um grupo, mas o estatuto dos membros desse grupo de pertencimento integral ao meio social onde estão inseridos. Essa política propõe desconstruir as duas formas conexas (econômica e cultural) de transformar a sociedade e decifrar quais são os obstáculos à igualdade. Não se trata, portanto, de postular direitos iguais a todos,³ mas de reivindicar a paridade da participação de todos nas relações sociais, definir o campo da justiça social como, simultaneamente, redistribuição e reconhecimento, classe e estatuto nas relações sociais. Evitar a psicologização e a moralização talvez seja a chave para construir uma estratégia coerente, que contribua para eliminar os conflitos e contradições entre esses dois grandes modelos de luta.

Nancy Fraser é titular da catédra Repensando a Justiça Social do Colégio de Estudantes Mundiais da Fundação da Casa de Ciências Humanas. Autora de Les mouvements du féminisme. De L’insurrection des années 60 au néoliberalisme {Os movimentos do feminismo. Da insurreição dos anos 1960 ao neoliberalismo}, Lá Découverte, 2012

Ilustração: Lollo

1 Cf. Richard Rorty, Achieving our country: leftist thought in twentieth-century America [Alcançando nosso país: a esquerda pensada nos Estados Unidos do século XX], Harvard University Press, Cambridge, 1998; Todd Gitlin, The twilight of common dreams: why America is wrecked by culture wars [O crepúsculo dos sonhos comuns: por que os Estados Unidos estão mergulhados em guerras], Metropolitan Books, Nova York, 1995.

2 Cf. Charles Taylor, “The politics of recognition” [A política do reconhecimento], em Amy Gutman (org.), Multiculturalism: examining the politics of recognition [Multiculturalismo: examinando as políticas de reconhecimento], Princeton University Press, 1994.

3 Axel Honneth, La lutte pour la reconnaissance [A luta pelo reconhecimento], Le Cerf, Paris, 2000.

 Fonte: Le  Monde Diplomatique Brasil
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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Leci Brandão: Essa Tal Criatura

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Em 2004 eu escrevi em uma nota, na da monografia Ação e reflexão de um ativismo homossexual na Baixada Fluminense, apresentado ao curso de bacharelado em História Social, na UFF:

“Leci Brandão foi o primeiro artista da Música Popular Brasileira a ousar falar com naturalidade a respeito de sua homoafetividade. Em entrevista ao Jornal Lampião da Esquina, nº 6, de novembro de 1978, págs. 10-11, perguntada sobre se “Seu relacionamento com o homossexual, entendido, povo guei, como se queira chamar, é platônico ou participante”, responde: “Platônico e participante”. “Em que sentido”, perguntam novamente. – Leci:
“Quer ver? Por exemplo, o fato de eu ser homosssexual é uma coisa que não me incomoda, não me apavora, porque eu não devo nada a ninguém (…) A gente já é marginalizado, de cara, pela sociedade. Então a gente se une, se junta, dá às mãos. E um ama o outro, sem medo nem preconceito. É um negócio maravilhoso, que eu estou sentindo de cabeça, realmente. É o mais produtivo mergulho que eu já dei em mim mesma e na vida!” 

– Teve a ousadia inclusive de em diversas composições de sua autoria abordar o tema do amor “entendido”, entre as quais destacam-se “Deixa pra lá”, “Ombro Amigo”, “As pessoas e eles”, “Essa tal criatura” .
Seu comprometimento político, porém, não deixaria de ser severamente sancionado. Em novembro de 1980, o número 6 do Lampião publica, na página 2, uma carta onde Leci afirma que não desfilará pela Mangueira. Denuncia que fora vítima de discriminação por parte de um dirigente “Primeiro Ministro” que estaria preparando um Ato visando a sua expulsão “logo após o carnaval”. Ela, que, segundo afirma, por sete anos teve participação intensiva, divulgando o nome da Escola.
É a única lésbica de destaque nos meios artísticos a assumir publicamente sua orientação sexual e pautar-se por uma conduta sempre engajada politicamente, seja como mulher, lésbica, negra, de origem humilde:
“Luto pelos ideais do meu povo através dos versos musicados. Meu trabalho é social. É político, graças a Deus. Afinal, tenho vergonha na cara e não vou aplaudir arbitrariedades. Não bajulo quem nos consome a cada dia. Sou brasileira. Consciente. Atual. E principalmente sincera nas atitudes. Realmente não dá mais pra segurar. Ficar observando um sistema em que um homem todo poderoso convence as pessoas através de facilidades, ofertas de emprego, caixas de uísque, etc., é demais pra minha cabeça. (…) Discursar durante um jantar para alertar jornalistas, sambistas e militares da posição esquerdista e subversiva de uma compositora são coisas da MANGUEIRA 80, a MANGUEIRA DA PETROBRÁS. Por isto, SAIO.” (Grifos meus, RC).
No Lampião de junho de 1980, nº 25, há uma nota assinada por Antônio Carlos Moreira sobre os shows de Emílio Santiago na Sala Funarte, e o de Leci, no Teatro Opinião. Depois de registrar os discos da intérprete e compositora que abordam o tema – “Coisas do Meu Pessoal”, “Questão de Gosto”, “Essa Tal Criatura”, trata das músicas constantes no roteiro do show:
 “constavam músicas como: Margot de Edil Pacheco e Paulo Dinis, que conta a história de um travesti; Chantagem de Leci dirigida aos mau caráter que se aproveitam de situações onde assumir a homossexualidade é algo danoso, para assumir o papel do opressor; Me Acalmo Danando de Ângela RO RO e finalizando Essa Tal Criatura de Leci, que [e]voca a busca do prazer, seja como for e qual for, pelos seres humanos – Corra no campo/Leva um tombo/Rala o joelho/Mata essa sede/Durma na rede/sonha com a lua/Grita na Praça/Picha as paredes/Ama na maior liberdade… abra,/escancara esse peito. Recentemente, numa homenagem feita pela produção do Show Bifão Cabaré, Leci mais uma vez afirmou que seu trabalho tem sido feito com muito sacrifício, e que as barras e as batalhas ganhas foram estimuladas não só pela confiança em seu trabalho, que considera conseqüente, mas principalmente por acreditar nas pessoas iguais a ela e para as quais dedica todo seu esforço, os homossexuais, essas tais criaturas!” (Grifos do original..).
Em sua página virtual, o texto de sua trajetória dá conta dos anos em que ficou sem gravar, conseqüência direta de suas músicas denunciando preconceitos diversos. Estranhamente, embora toda a relevância e pioneirismo de seu comprometimento político com a questão da homossexualidade e o dinamismo presente no movimento homossexual brasileiro, até o momento não foi possível localizar as mencionadas letras das músicas de Leci Brandão em páginas na Internet.”
Este texto acima eu o publiquei, em 15/02/2009, no meu blog Comer de Matula, sob o título O ativismo lésbico de Leci Brandão.
Hoje, porém, com alegria, postei lá um comentário:
Acabo de ouvir Leci Brandão na TV Brasil cantando "Essa Tal Criatura". Fui conferir na internet. Surpresa: agora já há a música, na gravação original, inerida no You tube em 2010, e a letra, em vários sítios.

Confira: http://youtu.be/ETKOHX3D_74

http://www.vagalume.com.br/leci-brandao/essa-tal-criatura.html


Vejo que o melhor lugar para esta postagem é aqui, onde procuro registrar, acumular e recuperar a história dessa parte da população brasileira e a sua luta para se tornar pessoas comuns, dignas de respeito e direitos como qualquer dos demais.

Lamentavelmente, não encontrei nem a letra, nem o áudio da música "As pessoas e eles", do LP "Questão de Gosto", de 1976. Eis trechos de sua letra: "As pessoas, olham pra eles com ar de reprovação... / As pessoas não entendem porque eles ... Simplesmente porque se assumiram ..." (Quem lembrar da letra inteira ou quiser disponibilizar o seu áudio, agradeço).


Veja vídeos e mais informações no blog de Rita Colaço: http://www.memoriamhb.blogspot.com.br/2012/06/leci-brandao-essa-tal-criatura.html.
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domingo, 27 de maio de 2012

Marcha das vadias: Movimento contra a violência sexual acontece em Salvador

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Quem passou pelo centro de Salvador na tarde deste sábado, 26, encontrou um protesto diferente no trajeto entre a praça da Piedade e o Terreiro de Jesus. O movimento Marcha das Vadias, realizado entre às 15h e às 18h, reuniu cerca de 300 homens e mulheres, principalmente jovens mobilizados via redes sociais, com placas, faixas e palavras de ordem, para protestar contra a violência sexual e a cultura machista ainda dominante de colocar a mulher como culpada ou motivadora da agressão sexual sofrida.

Ao longo do trajeto, houve três paradas do movimento: em frente ao mosteiro de São Bento e nas praças Castro Alves e Sé. No Terreiro de Jesus, nas escadarias da Catedral Basílica, militantes usaram o megafone para expressar sua solidariedade às mulheres. Marcelo Cerqueira, representando o Grupo Gay da Bahia (GGB), esteve no evento e defendeu a eliminação de todas as formas de violência contra as mulheres.

A marcha teve ainda a presença da delegada Patrícia Nuno, vestindo calça jeans e um colete rosa Pink. A delegada, que ficou conhecida na Bahia como "Delegata", andou com as mulheres até o Terreiro de Jesus e cumprimentou algumas lideranças femininas.

Durante o percurso, as militantes também explicavam o contexto da palavra vadia e diziam que a sociedade se escandaliza com a expressão, mas que não reage à violência contra o gênero feminino.

Outros estados - O protesto também aconteceu simultaneamente em 20 cidades do país. São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, entre outras capitais, fizeram parte do movimento internacional, que teve origem em Toronto, no Canadá.

Em entrevista à Agência Estado, Daniela Montper, uma das organizadoras da manifestação no Rio de Janeiro, afirmou que o protesto defende também o combate a toda forma de violência e abuso sexual contra meninas e mulheres; além de pregar a diversidade sexual. "Nenhuma pessoa deve ser discriminada por sua orientação ou identidade sexual", reforçou. Outra bandeira dos participantes é a descriminalização do aborto.

No ano de 2011, cidades do interior da Bahia como Itabuna também participaram da mobilização.

Origem -  Através de fanpages sobre a Marcha das Vadias em várias cidades, criadas no Facebook, os grupos militantes explicam o surgimento do movimento. De acordo com eles, a marcha teve início no Canadá, quando um policial, que dava palestra sobre segurança no campus de uma universidade de Toronto, afirmou que as estudantes deveriam evitar se vestir "como vagabundas" para não serem vítimas de assédio sexual ou estupro.

Após a declaração do policial, mulheres de Toronto e de vários países deram início a um movimento que luta pelo direito de serem donas de seus próprios corpos. O evento se espalhou pelo mundo, até chegar ao Brasil.

Fonte: A Tarde
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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Marcha das Vadias ocorre neste sábado 26 em Salvador. Veja os cartazes

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sábado, 12 de maio de 2012

Numa lista de 84 países, Brasil é o sétimo em homicídios praticados contra as mulheres

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Um estudo divulgado na segunda-feira, 7, apontou que o Brasil tem o sétimo maior índice de homicídios entre as mulheres entre 84 países. De acordo com a pesquisa, a taxa de homicídio no país ficou em torno de 4,4 vítimas para cada 100 mil mulheres.

El Salvador lidera o ranking, com taxa de 10,3 vítimas para cada 100 mil mulheres. Na frente do Brasil ainda aparecem Trinidad e Tobago (7,9), Guatemala (7,9), Rússia (7,1), Colômbia (6,2) e Belize (4,6). Com taxa zero, Marrocos, Egito, Bahrein, Arábia Saudita e Islândia estão na outra ponta do índice de homicídios entre as mulheres.

A pesquisa, coordenada pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, foi batizada de ‘Mapa da Violência de 2012: Homicídios de Mulheres no Brasil’ e foi feita com apoio da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais – FLACSO – e do Instituto Sangari. O objetivo do estudo é traçar um panorama da evolução do homicídio de mulheres entre 1980 e 2010, quando foram assassinadas 91.932 mulheres, sendo quase a metade – 43.486 mortes – na última década desse período.

Os Estados com maiores taxas, no ano de 2010, foram: Espírito Santo, Alagoas e Paraná, com taxas de 9.4, 8.3 e 6.3 homicídios para cada 100 mil mulheres, respectivamente. Um detalhe também significativo é o local onde aconteceu a agressão: em 69% das vítimas femininas atendidas pelo SUS, foi na própria casa. O relatório completo do estudo pode ser acessado pelo site: http://www.mapadaviolencia.net.br/

Fonte: VoxFM
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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Militante lésbica, Raphaella Oliveira defente dissertação de mestrado

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domingo, 22 de abril de 2012

MANIFESTO CONTRA O MACHISMO E A LESBOFOBIA

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Nós, cidadãs, cidadãos e entidades abaixo relacionadas, vimos a público nos manifestar contra o machismo e a lesbofobia que vem ocorrendo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e exigimos ação imediata da Universidade contra isso.

Na noite de 14 de abril de 2012, em uma festa de estudantes na UFJF, no Instituto de Artes e Desing, uma jovem de 17 anos foi estuprada. Queremos que haja apuração e punição de culpados, por parte da Reitoria, Direção do Instituto e demais autoridades. Também queremos que ações educativas sejam implantadas. Isso porque, muito embora saibamos que a violência física e simbólica contra as mulheres lamentavelmente ocorra em toda a sociedade, não podemos admitir tais atrocidades no ambiente acadêmico, onde o ensino, a pesquisa, a extensão e a administração devem se dar na busca por uma sociedade igualitária e democrática.

O estupro da jovem, no dia 14 de abril, infelizmente é uma situação limite mas não é um fato isolado. Em recepção aos e às estudantes, em março, calouras da Faculdade de Comunicação foram obrigadas a carregar placas com os dizeres "cara de sapatão" e "cara de puta". Tais "brincadeiras" constrangedoras expressam a lesbofobia e o machismo que chega no estupro, no contexto da calourada. Do constrangimento ao estupro, esses fatos não tiveram efetivas e eficientes ações contrárias por parte da Universidade.

Quem se cala diante disso é conivente com a violência contra a mulher, expressa no machismo e na lesbofobia. Uma Universidade Federal, que é paga pelo dinheiro do povo - mesmo povo que elegeu uma mulher para a Presidência da República -, não pode admitir essa e nenhuma violência.

Basta de impunidade! Queremos que a Reitoria e as direções de unidades envolvidas apurem, punam e implementem ações educativas.

Chega de machismo e de lesbofobia na UFJF! Chega de machismo e de lesbofobia em toda a sociedade.

Divulgação
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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Maioria do STF vota por interrupção de gravidez

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O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou, nesta quinta-feira 12, a interrupção da gravidez em casos de fetos anencéfalos (sem parte do cérebro) no Brasil. O julgamento da ação, proposta pela pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS), foi interrompido na véspera e retomado na tarde do dia seguinte. Coube ao ministro Carlos Ayres Britto dar o sexto o voto favorável à ação, que garantiu às mulheres o direito de interromper voluntariamente o parto quando a condição do feto é detectada. A ação que pedia a descriminalização de abortos nessas circunstâncias teve oito votos favoráveis e só dois contrários, expostos por Ricardo Lewandowski e pelo presidente da Corte, Cezar Peluso.


Representantes da sociedade civil e religiosos assistem, no STF, sessão de julgamento sobre aborto de anencéfalos Foto: Agência Brasil

Além de Ayres Britto, os ministros Luiz Fux, Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa, Rosa Weber , Gilmar Mendes e Celso de Mello também acompanharam o voto do relator do processo, Marco Aurélio Mello. Eles argumentaram que a anencefalia é incompatível com a vida.

Ao declarar seu voto, que definiu o julgamento, Ayres Britto apontou contradições na Constituição por considerar o aborto como crime sem contextualizar claramente o conceito de vida. “É estranho criminalizar o aborto, a interrupção voluntária do parto, se não há definição do que é a vida humana. Sobre o início da vida, a Constituição é de um silêncio de morte”, declarou.

O ministro disse que a Lei Penal considera crime apenas o aborto de fetos viáveis. Ele também reiterou o argumento de que a morte de anencéfalos é um fato incontornável. “O feto anencéfalo é uma crisálida que jamais se transformará em borboleta porque não alçará voo jamais”.

Durante sua fala, ele lembrou os riscos para a gestante ao levar em diante a gravidez: “Essa mulher pode sofrer de patologias maternas como a hipertensão, que leva essas mães a percorrerem uma gravidez de risco elevado. Levar às últimas conseqüências esse martírio contra a vida de uma mulher é uma tortura, um tratamento cruel. Se os homens engravidassem a interrupção seria lícita desde sempre”.

Ayres Britto também deixou claro que essa é uma decisão exclusiva da mulher. Caso algumas gestantes optem por não interromper a gestação, este também será um direito assegurado. Para ele, o incorreto é criminalizar aquelas que não desejam manter a gestação.

Ao fim de seu voto, o ministro citou versos da canção Pedaço de Mim, de Chico Buarque de Hollanda. “A saudade é o revés de um parto, é limpar o quarto do filho que já morreu”, disse ele, enfatizando a dor da mãe que gera um bebê morto.

Depois de Britto, foi a vez de Gilmar Mendes manifestar seu voto. Ele também foi favorável à descriminalização do aborto de anencéfalos. Porém, propôs que o Ministério da Saúde crie normas para regular o procedimento. “Sugiro que o Ministério da Saúde assegure serviços de saúde qualificados para as gestantes que resolvam manter ou interromper a gravidez de fetos anencéfalos. A decisão deverá emanar do STF que imponha às autoridades competentes do Ministério da Saúde a obrigação de editar normas de organização e procedimento que garantam segurança exigida [às gestantes]”, declarou.

O ministro sugeriu ainda que, para fazer o aborto, a mulher precisará de dois laudos médicos distintos que comprovem a anencefalia do feto. “Com o avanço das técnicas de diagnósticos se tornou comum descobrir a anencefalia fetal”. Assim como os outros ministros favoráveis à ação, Gilmar Mendes acredita que “não é tolerável que se imponha à mulher tamanho ônus [a gestação de fetos anencéfalos] na falta de um modelo jurisdicional adequado”.

Polêmica
Sugerida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde, a ação chegou no STF em 2004 e, desde então, causa polêmica e debates principalmente entre grupos feministas e de cientistas e religiosos.


Religiosos fazem manifestação em frente ao STF, pedindo que os ministros rejeitem a descriminalização do aborto em caso de feto anencéfalo. Foto: Agência Brasil

Setores religiosos, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), defendem que o direito à vida deve ser respeitado independente do tempo de vida do bebê. Juristas que autorizam a interrupção de gestações desse tipo há mais de 20 anos alegam que a vida termina com a morte cerebral. Os anencéfalos nunca chegam a ter vida cerebral.

Para os contrários ao aborto de anencéfalos, a decisão do STF é de grande importância porque, caso seja favorável à descriminalização, pode abrir precedentes para todos os tipos de aborto. De acordo com uma pesquisa do instituto Datafolha, em 2004 havia 67% de paulistanos favoráveis a interromper a gravidez de bebês com anencefalia.

Foi um dos mais importantes julgamentos do ano e foi acompanhado por favoráveis, contrários e curiosos. Havia pessoas do lado de fora do prédio e algumas conseguiram entrar para acompanhar a decisão do plenário do STF. Um forte esquema de segurança foi organizado para evitar confrontos.

Argumentos
No primeiro dia do julgamento, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, defendeu o direito de as gestantes interromperem a gravidez nos casos de fetos anencéfalos. Porém, ele ressaltou que caberá à gestante decidir sobre isso.


“Não está se afirmando que a mulher deve [interromper a gravidez”, destacou Gurgel. Foto: STF”]

Gurgel lembrou que há uma baixa sobrevida do feto após o parto no caso dos anencéfalos e considerou a opção pelo aborto nesses casos. “O anencéfalo é um natimorto cerebral. A antecipação terapêutica do parto não lesa [nem a legislação nem os direitos individuais]”, disse ele.

A sustentação oral do direito das mulheres de interromperem a gestação quando o feto é anencéfal foi feita pelo advogado Luiz Roberto Barroso, que defende o direito ao aborto. “É o direito de pensar e escolher”, disse ele. “A criminalização da interrupção da gestação quando o feto não é viável viola os direitos das mulheres.”

Em sua exposição durante o julgamento, o ministro Marco Aurélio Mello, relator do processo, deu voto favorável ao direito da mulher interromper a gravidez, sob o argumento de que “anencefalia e vida” são termos incompatíveis.

Em sua fala o ministro defendeu a laicidade do Estado e destacou pareceres médicos sobre a doença. Ele fez um histórico sobre os oito anos em que o caso está na Corte e mencionou argumentos favoráveis e contrários.

“O Estado não é religioso, tampouco ateu. O Estado é neutro”, disse o ministro. “A descriminalização do aborto de anencéfalos não pode ser examinada sobre os influxos de orientações morais-religiosas. Os argumentos dos grupos religiosos devem ser devidamente traduzidos em termos de orientação pública, ou seja, que independam desta ou daquela crença”, completa.

Segundo o ministro, “o anencéfalo é um natimorto, não há potencialidade de vida, mas sim de morte segura. Nesse contexto o aborto não configura crime contra a vida”.


O ministro Marco Aurélio, relator do processo sobre anencefalia no STF: 'o anencéfalo é um natimorto, não há potencialidade de vida'

Destacou ainda que a decisão trata exclusivamente da anencefalia. “Não se trata de ausência de membros, sindrome de down, lábio leporino…, enfim, não se trata de feto portador de deficiência grave que permita sobrevida ultra-uterina. Cuida-se exclusivamente de anencefalia.”

Ele disse também que a manutenção da gravidez pode desencadear um quadro psiquiátrico grave na gestante.

Em seguida, a ministra Rosa Weber somou seu voto ao de Marco Aurélio Mello e votou a favor do direito da mulher interromper a gravidez, alegando que a anencefalia não é compatível com a vida.

“O crime de aborto diz respeito à interrupção de uma vida em desenvolvimento, e a anencefalia não é compatível com as características que substanciam o conceito de vida para o Direito”, argumentou a ministra.

Segundo ela, para a Justiça não há interesse social em proteger uma vida que não vai se concretizar.
Durante a leitura de seu voto, a ministra disse que “não basta a concepção de material biológico humano para ser considerada vida para o Direito. Para ser vida, e ser protegido pelo Direito, o feto deve ter e poder desenvolver capacidades humanas e possibilidades concretas de se tornar pessoa”.

Além disso, afirmou ela, é preciso prover a mulher de liberdade para optar pelo prosseguimento ou não da gestação de fetos anencéfalos. “A proibição da antecipação do parto fere a liberdade de escolha da gestante, que se encontra na situação de carregar feto anencéfalo no seu ventre”, defendeu Weber.


Para a Justiça, não há interesse social em proteger uma vida que não vai se concretizar, diz Rosa Maria Weber. Foto: TST

Depois dela foi a vez de Joaquim Barbosa, que também votou a favor da descriminalização. Ele argumentou que sua posição é baseada em decisões tomadas anteriormente na Corte.

Luiz Fux, por sua vez, declarou: “O STF evidentemente respeita as mulheres que desejarem realizar o parto mesmo que anencéfalo. Temos que avaliar se é justo, sob o âmbito criminal, colocar essa mulher no banco do júri por conta de uma aborto. É lamentável que a mulher a padecer dessa tragédia [carregar o feto anencéfalo] durante nove meses seja criminalizada, e jogada no banco do Tribunal do Júri”.

O ministro demonstrou preocupação com o fato de as mulheres serem condenadas a partir de “propensões”, de cultura e crença, do Júri em determinadas qualidades.

“Como a expectativa de vida de fetos anencéfalos é extramente efêmera, é necessário proteger a mulher dos danos psicológicos e o sofrimento mental da gestante”, disse Fux. “Devemos considerar a dignidade da pessoa humana como base da bioética e dos direitos fundamentais.”

Em seguida foi a vez de Carmén Lúcia dar seu voto a favor da descriminalização. “Numa democracia, a vida impõe respeito. E este feto não tem vida, mas a mãe e o pai desta criança têm e sofrem com esta gravidez. Por isso, voto a favor da descriminalização do aborto de anencéfalos”, disse.

O ministro Lewandowski fez sua exposição em seguida. Ao esclarecer a sua posição, ele recordou casos em que o aborto já é permitido – quando há ameaça à vida da gestante ou quando a gravidez é resultado de estupro. Segundo ele, a legislação prevê a punição em casos de aborto induzido por causa do feto malformado. A descriminalização seria, portanto, inconstitucional.


Luiz Fux e Cármen Lúcia: 'este feto não tem vida, mas a mãe e o pai desta criança têm e sofrem', disse a ministra Foto: José Cruz/ABr

Lewandowski disse também que a lei sobre tema deve partir do Parlamento, e não do Judiciário. Ele lembrou que o Congresso Nacional tem ao menos dois projetos de lei para normatizar o assunto.

O julgamento foi, então, interrompido. Retomado na tarde do dia seguinte, foi definido com o voto de Ayres Britto, seguido pelo posicionamento favorável do ministro Gilmar Mendes, conforme a descrição acima.

O penúltimo a dar seu voto foi Celso de Mello, que também seguiu o relator. “O Supremo Tribunal Federal está a reconhecer que a mulher apoiada em seus direitos reprodutivos e protegida pelos princípios constitucionais tem o direito de optar pela antecipação terapêutica do parto ou tem legitimado o direito pelo prosseguimento do processo fisiológico de gestação”, disse Mello.

Para o ministro, as mulheres brasileiras recebem “hoje o amparo jurisdicional do STF, que lhes garante o exercício, em plenitude, do direito de escolha”. Mello ressaltou que a Suprema Corte não está legitimando a prática indiscriminada do aborto. “Não estamos autorizando métodos abortivos, não estamos legitimando a prática do aborto. Essa questão pode ser apreciada em outro momento”.

O último a dar seu voto foi o ministro Peluso. Em seu argumento, ele enfatizopu que não se pode impor pena capital ao feto anencefálico, reduzindo-o à condição de lixo ou de “alguma coisa imprestável”. Deu assim seu voto contrário à descriminalização – aceita, afinal, com 8 votos a 2.

O ministro Dias Toffoli não votou, pois no passado, quando era advogado-geral da União, manifestou-se favorável à interrupção da gravidez no caso de anencéfalos.

Fonte: Carta Capital
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