Redação da Revista Lado A
Uma nova onda de personagens gays está ganhando o mercado do humor e irritando muita gente. Caricaturas de homossexuais que despejam estereótipos e ajudam a disseminar preconceitos e desinformação sempre ganahram espaço na mídia, para o desespero dos gays que não gostam dessa abordagem. A diferença é que agora são interpretados por gays assumidos e isso dá mais veracidade ainda ao personagem e ao preconceito.
Costinha, Jô Soares, piadistas e humoristas do passado já interpretavam personagens afeminados que faziam os héteros e ate os gays rirem de situações engraçadas e da ridicularização dos homossexuais na tevê. Vera Verão, interpretada pelo falecido bailarino Jorge Lafond, foi a primeira a sair do armário nos anos 90 e a receber uma avalanche de críticas. De lá para cá surgiram o Christian Pior, Betina Botox, Serginho e seu clone, o personagem Cleiton - amigo de Lady Kate, ambos no programa Zorra Total, entre outros. Sem falar na Rose – a doméstica dos viado, personagem não gay mas que trata do tema e virou hit no You Tube, entre outros.
Ao serem questionados sobre o assunto, a resposta dos humoristas gays é a mesma dos héteros: a licença do humor e sua função de divertir e alegrar as pessoas. Ora, faz tempo que grupos como judeus e negros conseguiram sair da humilhação de serem estereotipados. A ficção é outro argumento, da ausência do compromisso com a realidade. Mas ao colocarem personagens interpretados por homossexuais não estariam contrariando este princípio, quando alguns dos humoristas apenas repetem piadas, bordões e o próprio estilo de ser em seus personagens? Charles Chaplin já fazia humor mudo em preto e branco, há 100 anos, e até hoje é uma referência. Não é preciso abrir a boca e despejar tanta besteira para fazer os outros rirem.
Fazer humor humilhando um grupo ou um personagem é muito fácil. Infelizmente, muitos humoristas gays acabam por seguir o caminho que deveriam evitar, de reforçar preconceitos, o caminho do politicamente incorreto. Christian Pior, por exemplo, disse esta semana no rádio que adora sexo pago e que iria oferecer dinheiro para um “boy” ir a sua casa. Serginho, que interpreta a si mesmo, sempre está a dar chiliques em seu quadro no Zorra Total apesar de sempre sair das situações por cima. A Rose, além de ser doméstica dos “viado”, chama de “bicha” os gays toda hora e tira sarro dos pobres como a personagem. A receita é a mesma do Christian Pior.
Algumas tiradas são até interessantes mas, no conjunto, a obra quase sempre reforça: gays querem sexo a toda hora, gays gostam de bofes heterossexuais, se referem no feminino, usam expressões como "aloka", "mona", "luxo", "passada", "adoooro"; e não tem noção do ridículo, desprezam os pobres, gays são ricos ou fingem serem ricos, usam termos estrangeiros em excesso, não gostam de mulheres, entre outras afirmações feitas nas entrelinhas.
É importante entender o quão pernicioso é este tipo de humor. Para saber se os limites estão sendo esquecidos, basta colocar um negro, deficiente ou judeu na mesma situação e será possível ver o quão preconceituosas ou degradantes são a situação, que não se justifica o uso de um grupo para servir de “escada” – termo utilizado no humor para aquele que serve de motivo de uma brincadeira.
O humor deve continuar, os personagens gays também, só não se pode disseminar preconceitos, que acabam por servir de argumentos para uma sociedade preconceituosa. Piadas que são replicadas por adolescentes, que são interpretadas como uma autorização social para degradar homossexuais. No fim, temos mortes e ataques à comunidade gay, bulling nas escolas, pois o preconceito já existente casa com a imagem que é passada nos veículos de comunicação: gays são seres muito diferentes de mim e escolheram serem assim, devem sofrer as consequências. Somos todos diferentes, o estereótipo pregado realmente existe, mas de forma alguma representa o que é ser homossexual. Sem falar que destrõem a auto estima da comunidade e criam uma rejeição da própria imagem como gay.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
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1 comentários:
Assino embaixo em tudo!
Ontem eu tomei a coragem de ver esse quadro do Serginho no Zorra, e eu, que já não gostava dele, passei a tomar N-O-J-O.
Quero saber quando chegará o dia em que seremos tratados com respeito e dignidade.
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