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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Repercussões do Stonewall 40 + O Que No Brasil ganha o cenário nacional e pode desembocar no ENUDS

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ENUDS começa hoje em Campinas.

Delegação da Bahia não favorece outro debate entre queers e identitários.

Programação vai até a terça-feira, dia 12 de outubro.

COMUNICAÇÃO/FÓRUM BAIANO LGBT
Da Redação


Se o Seminário Stonewall 40 + O Quê no Brasil não tivesse cumprindo com sucesso outros propósitos, só o debate suscitado por ele já o teria transformado em um dos eventos de maior repercussão do ano. Ao reunir alguns dos maiores pesquisadores e pesquisadoras do país e militantes como Keila Simpson, a UFBa conseguiu nacionalizar um debate ainda extremamente restrito ao eixo Sul-Sudeste. A suposta disputa entre queers e identitários, que ambos negam e ambos legitimam, ultrapassou o evento para ganhar grupos de e-mails e listas na internet, conversas informais e mesas. E a previsão é de que vai desembocar no 8º Encontro Nacional de Diversidade Sexual (ENUDS), que ocorre a partir do dia 8 em Campinas, São Paulo.

O mérito da polêmica se deve às opiniões apresentados pelo professor da UFSCar, Richard Miskolci (na foto, em mesa do Stonewall 40 +). Naturalmente, a qualidade do evento não se resumiu ao debate com Miskolci, mas foi a divulgação da fala em texto que provocou reações. Diretor da ABGLT, Leo Mendes defendeu a militância intelectual de Luiz Mott e acusou os queers de atuarem contra o movimento LGBT. Posição de mais diálogo foi apresentada por Julian Rodrigues, militante do Grupo Corsa de São Paulo: “Não considero essa divisão [entre queers e identitários] absoluta, nem útil. A teoria queer tem elementos importantes, quando questiona o patriarcado, a heternormatividade, quando coloca sobre suspeita identidades fixas, imutáveis, parciais, que se pretendem absolutas e universais”. Mas Julian vai mais longe: “Para sustentar sua posição, o professor Richard faz uma associação mecânica e sem lastro empírico-teórico entre os "identitários" e movimento LGBT a "gays brancos de classe média discretos" e, ao mesmo tempo, reivindica para os "queer" uma representação feminista, feminina, negra, pobre, etc.” E questiona: “A maioria dos "queer" não são gays brancos de classe média e intelectuais?”

Debate virtual entre Richard Miskolci e Julian Rodrigues
À opinião de Julian, Miskolci respondeu afirma que o “texto não é nenhum ataque ao movimento LGBT, muito pelo contrário” e afirma que o militante paulista não o leu direito para tirar as conclusões acima. “A cobrança da participação ‘real’ em ações e Paradas reitera meus argumentos sobre o tipo de demanda que alguns fazem aos acadêmicos, já que consideram que política é ação e desconsideram a reflexão que a gera ou articula. Trata-se de clara manifestação de antiintelectualismo”, afirmou o sociólogo. Na resposta de Julian, ele negou a acusação de antiintelectualismo.

“Filio-me à tradição do materialismo histórico-dialético e não acredito em uma teoria  descolada da prática social”, escreveu Rodrigues em resposta ainda mais longa. “Não é possível que um pensador queira "contribuir com o avanço da política sexual brasileira" sem se envolver concretamente, por exemplo, com o movimento LGBT organizado. Pensar é pensar e repensar a partir de um fazer e refazer. Intelectuais em "torres de marfim" dizendo ao movimento o que este tem de errado não é algo muito construtivo”. Em outro parte da resposta, Julian critica o que ele considera “uma certa paúra do Estado”. “[É] como se nós, sujeitos políticos LGBT, não devêssemos reivindicar ‘reconhecimento’  e ‘participação’, nos termos da feminista Nancy Fraser [...].” E finaliza: “É como se reivindicar igualdade civil ou o direito do casamento gay fosse a mesma coisa que reforçar a idéia da família burguesa-patriarcal ou se render ao conservadorismo”.

Animado com o debate, o presidente da ABGLT, Toni Reis, convidou Julian para escrever um artigo sobre o tema. O debate também foi parar na lista do ENUDS, onde os estudantes queers criticaram as posturas do movimento LGBT.

Divergências podem ser retomadas no ENUDS, com apenas um dos lados do debate
Não é demais afirmar que a reação dos segmentos do movimento LGBT às posições dos queers jamais estiveram em tanta evidência. Os grupos de pesquisas de sexualidade e orientação sexual têm crescido e divulgado suas opiniões em eventos cada vez maiores. No entanto, as opiniões dos teóricos queers continuam restritas às universidades. Seria exagero concluir que o movimento LGBT enfrenta oposição real às suas posições “identitárias”. Até porque o identitarismo não é, propriamente, uma teoria científica e sim uma forma de fazer política.

O movimento de mulheres também vivenciou essa divisão entre teóricas e militantes, mas ao fim elas tiveram de se fundir e as teorias feministas são uma parcela importante e indissociável da luta feminina.

Por enquanto, não há um espaço comum de diálogo entre os segmentos. Teóricos queers como Miskolci não costumam ser convidados para eventos do movimento LGBT. Tampouco, militantes “identitários” como Julian estarão no ENUDS, onde as discussões serão retomadas sem um dos lados do debate.

Delegação baiana do ENUDS

COMUNICAÇÃO/FÓRUM BAIANO LGBT
Da Redação

Afastados das posições contundentes, o perfil da delegação baiana não favorecerá confrontos no 8º ENUDS em Campinas. Nas mesas, estão Negra Cris (UFAL/Rede Afro LGBT), Suely Messeder (Diadorim/UNEB, na foto em mesa do Stonewall 40 +) Washington Dias (Rede Afro LGBT), Leandro Colling (CUS/UFBa) e Osmundo Pinho (UFRB). Membros do Kiu!, da Rede Afro LGBT-Bahia, do GLICH e da Associação Beco das Cores, entidades filiadas ao Fórum Baiano LGBT, participarão do evento. Estudantes da UFBa e da UFRB também devem ir à Unicamp da sexta-feira 8 à terça 12.

Como é costumeiro nesse debate, os estudantes que pesquisam se identificam com a teoria queer. Já os estudantes que militam, nem tanto. Mas as relações entre eles, ao contrário das regiões mais ao sul do Brasil, têm se pautado pelo diálogo e não por uma defesa acirrada de posições divergentes. Vinícius Alves, liderança do Kiu!, defendeu os queers das agressões de Luiz Mott e Leo Mendes. O representante do Fórum Baiano LGBT na mesa do Stonewall 40 +, Nilton Luz, recusou a oposição entre a academia e a militância e reconheceu, como militante, o papel importante da intelectualidade e a contribuição dos teóricos e militantes queers. Foi uma resposta direta, mas sem citar nomes, ao protesto de Luiz Mott no dia anterior, que chamou os queers de “racistas” e “homofóbicos” no mesmo evento.

Por outro lado, os próprios queers não têm uma unidade evidente de posição política – intelectual, menos ainda. A coordenadora do Diadorim, Suely Messeder, que compôs mesa no Stonewall 40 + e também estará no ENUDS, discordou de Miskolci quando este defendeu um movimento “contra a homofobia”, em oposição à sopa de letrinhas (LGBTTTI). “Isso invisibiliza as mulheres lésbicas”, afirmou Messeder na mesa do Stonewall. Já o militante Fábio Ribeiro, do GLICH, que se aproxima da teoria queer, costuma afirmar: “Eu sou gay”.

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