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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ex-ex-gay escreve livro e defende que LGBTs podem enfrentar discurso homofóbico de religiosos

1 comentários
Para Welton Trindade, do PAROU TUDO

Negando que era homossexual, tentando viver um personagem, o teólogo, filósofo, ex-pastor e professor de inglês Sergio Viula (foto abaixo) achava que era feliz, mas se enganou. Apenas quando ele deixou de fugir de si mesmo é que ele pôde dizer que sabia o que era ser pleno. No caminho, ele foi um dos responsáveis por uma das entidades de conversão de homossexuais mais atuantes no país. Hoje, ele abomina tudo que é feito nesse sentido e conta sua história no livro “Em Busca de Mim Mesmo”.

Você já foi casado com mulher. Mas você já tinha desejo por homens antes disso?

Desde cedo eu me sentia diferente dos meninos. Eles se empolgavam com as garotas, e eu me sentia atraído por eles. Isso me causou sofrimento, não porque eu me sentisse atraído por eles, mas porque eu já ouvia as críticas dos adultos e dos colegas contra o que eles chamavam de “bichinha”, “viadinho”, etc. Essa rotulação me induzia a pensar que houvesse algo errado em gostar de meninos. E foi isso que, em parte, preparou o campo para as crenças que viriam mais tarde, como a crença de que gays devem mudar.

Como você lidava com o conflito entre religião e homossexualidade quando você era pastor?

Eu acreditava que a homossexualidade era pecado, desvio, patologia psicológica, etc. Tudo isso por causa do preconceito introjetado desde a infância, somado à homofobia das interpretações bíblicas tradicionais e ao modo como a sociedade imediatamente próxima (família, igreja, amigos, parentes) lidavam com os homossexuais que conheciam. O sofrimento era intenso. E eu passei a me considerar ex-gay quando me coverti ao evangelicalismo.

Toda essa questão é abordada com detalhes em meu livro, visto ser impossível cobrir campo tão vasto em algumas linhas aqui. Quando dei entrevistas à revista Época, ao Fantástico e a outros meios de comunicação, falei sobre isso, mas sempre superficialmente. Por isso, a idéia do livro: não só registrar uma biografia, mas questionar paradigmas que as pessoas geralmente não ousam criticar.

Você diz que defendia processos de reversão da homossexualidade. Qual era sua relação com quem fazia isso? E como você vê hoje o fato de você ter defendido esses métodos?

Eu defendia processos de reversão, e por isso mesmo fui um dos fundadores do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia). Essa ONG evangélica pregava a reversão da homossexualidade em heterossexualidade e afirmava que somente esta era saudável e aceitável diante de Deus. Durante anos, atuei com aconselhamento, produção de textos, folhetos, divulgação de livros voltados para essa questão, palestras, congressos, etc.

Desde que eu rompi com tudo isso, tenho afirmado veementemente a falácia desses movimentos e teorias evangélicas a respeito da homossexualidade.

Como foi o processo de você ter decidido viver sua homossexualidade? O que você teve de vencer para tal?

Eu tive que vencer tudo! Eu tive que primeiro me encontrar e amar a mim mesmo. Daí, o nome do meu livro “Em Busca de Mim Mesmo”. A trajetória entre o reconhecimento de mim mesmo como gay e noção de que não havia vantagem alguma em ser hetero ou em ser gay (ambas são apenas orientações naturais da sexualidade humana) foi dolorosa, mas o resultado foi maravilhoso.

Desfazer toda estrutura que eu havia construído como marido de uma mulher, pastor, fundador e colaborador de um movimento de suposta reversão sexual, professor de seminário teológico, editor de um jornal de apologética cristã, conferencista, etc, não foi nada fácil. De tudo o que eu construí até então, a única parte que nunca abdicaria, jamais renunciaria, são meus filhos. Adoro os dois! Também conto no livro como foi minha “saída do armário” para eles. Cada um teve seu momento e ambos foram muito especiais!

Os religiosos homofóbicos são os principais inimigos da cidadania LGBT. Como você, que já foi voz contrária a LGBTs e hoje trabalha pela igualdade, acha que nós podemos minar os discursos e as práticas homofóbicas dos religiosos?

Eles não resistem a um exame sério. Caem por causa de suas próprias contradições internas, e é isso que eu mostar no “Em Busca de Mim Mesmo,” e também no blog “Fora do Armário” (clique aqui) e com as palestras que apresento quando convidado.

Votar em representantes políticos que tenham um projeto de democracia baseado na laicidade do Estado é outra coisa fundamental. Denunciar os abusos dos homofóbicos à Justiça e processá-los de acordo com as leis disponíveis é importantíssimo!

No local de trabalho ou de estudo, o homossexual consciente e amante de si mesmo deve demonstrar no dia-a-dia as falácias desses movimentos e pregações através do próprio comportamento e do que diz aos amigos quando esse assunto surge.

Mas isso, infelizmente, ainda não é a realidade da maioria dos homossexuais. Muitos ainda só vêem a homossexualidade como comportamento de final de semana. Ir à boate, ir à sauna, participar de uma balada. Tudo é isso é lícito e prazeroso, mas se o homossexual só enxerga isso, então ele enxerga muito pouco e não percebe que até mesmo para ter essas liberdades, é preciso agir politicamente no dia-a-dia e nos momentos de grandes decisões, no campo das leis e dos projetos governamentais e da sociedade civil como um todo.

Em termos de liberdades civis, só temos o que conquistamos com esforço e inteligência, mas precisamos de vigilância contínua para mantê-las depois de conquistadas. Nenhuma delas é naturalmente dada.

Para comprar o livro, entre aqui.

1 comentários:

Fabinho disse...

Parabéns ao Sergio pelo seu exemplo de vida.

Essa coisa de "ex-gay" não existe, simplesmente porque é IMPOSSÍVEL deixar de ser gay, tanto quanto é impossivel deixar de ser hetero ou qualquer outra orientação sexual.

Tudo o que esses homens e mulheres sofridos fazem é ter sua orientação natural tolhida, violentada e reprimida, num processo desumano que DEVERIA ser tratado como crime.

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