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segunda-feira, 19 de março de 2012

Governo iraquiano autoriza polícia a "eliminar" gays

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Ministério diz que "emos" são "adoradores do demônio"; ativistas mencionam até 90 assassinatos desde janeiro
ONG acusa Bagdá de incentivar perseguição a minoria como forma de distrair a população de seus problemas reais

O iraquiano Hasan, 30, raspou o longo cabelo negro na semana passada. "Para não me matarem", diz à Folha. Trancado em casa, em Bagdá, ele tem medo de ser o próximo alvo da onda de violência que vitima gays no país.
Ativistas falam em até 90 mortes desde janeiro. Nos últimos seis anos, a estimativa é de cerca de 800 vítimas.
Os cabelos compridos e as calças jeans justas vêm sendo associadas à cultura "emo", ligada à música "emotional hardcore" americana. No Iraque, os adeptos desse estilo são vistos como gays.
Em 13 de fevereiro, o Ministério do Interior do Iraque emitiu comunicado dizendo que emos são "adoradores do demônio" e autorizando a polícia a "eliminar" a moda.
Encorajadas pela nota, milícias patrulham bairros dando conta dessa tarefa. Segundo testemunhas, as vítimas são apedrejadas até a morte.
Os assassinatos têm causado pânico no país. Daí o corte forçado de Hasan, que considerava o penteado um componente de sua identidade.
"Era lindo. Como o cabelo dos japoneses, preto e liso. Parecia uma nuvem na minha cabeça", diz, aos prantos.
NORMAL
Hasan costumava manter o cabelo longo e as calças jeans justas. Hoje, prefere evitar o risco. "Quando polícia e milícias veem alguém que se cuida, que veste alguma coisa especial, que é bonito, que é limpo, eles batem nele. Dizem que não é normal."
Há debate público no Iraque, hoje, para elucidar as razões da violência contra gays.
Autoridades políticas e religiosas condenaram os assassinatos, chamando os atos de "terrorismo" e de "ameaça".
As críticas têm se voltado contra o governo. Apesar de o comunicado do Ministério do Interior do Iraque, retirado do ar na semana passada, ser ambíguo ao autorizar a "eliminação" de emos, ativistas apontam que o texto ajudou a incentivar as mortes.
"O ministério tem de ser responsabilizado pelo fracasso em proteger os cidadãos e por incitar a violência", diz Rasha Moumneh, pesquisadora do grupo Human Rights Watch -que emitiu parecer sobre o episódio.
A histeria pública, afirma Moumneh, serve para distrair a população das "questões reais", como a insegurança.
Para Andre Banks, diretor-executivo da ONG All Out, se o governo iraquiano não incentivou os assassinatos, também "não fez absolutamente nada para impedir".
Ele cita as listas que circularam em Bagdá nas últimas semanas, impressas com os nomes das futuras vítimas, a respeito das quais não foram tomadas medidas.
"Eles mataram meus amigos", lamenta Hasan. Anos atrás, ele perdeu também o namorado -ao descobrir
a relação entre os rapazes, o pai atirou na cabeça do filho.
O ativista gay Ali Hili, 38, que trocou Bagdá por Londres em 2002, diz que a situação piora "a cada dia" no Iraque. Ele mantém a ONG Iraqi LGBT, com que diz lutar "para que haja diversidade no país".
"Bagdá era como um paraíso quando eu estava lá. Havia áreas para a paquera, bares gays, e ninguém ligava."
Hoje, Hasan reluta em se queixar de sua vida ao repórter. Ele diz que não quer reclamar, que precisa ter paciência. Que vai ficar tudo bem.
"É só não sair de casa. É a única coisa que posso fazer."

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