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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

[ARTIGO] Contendo a maré da intolerância - Pietro Veronese

1 comentários
Não é fácil ser gay na África, e, nesse sentido, 2010 revelou-se particularmente perigoso. Do Senegal ao Burundi, de Zâmbia ao Maláui e ao Quênia, gays e lésbicas foram perseguidos e tiveram sua orientação sexual criminalizada, e leis contra os homossexuais foram postas em vigor.

Líderes políticos e religiosos da África costumam criticar a homossexualidade como sendo um "comportamento não africano".

Mas, a julgar pela indignação em todo o continente contra os gays e as lésbicas, e pelas leis duras contrárias a ele na maioria dos 53 países africanos, dá a impressão de que a homossexualidade é disseminada.

E, em alguns países, a repressão a homossexuais pode ser atribuída a uma origem estrangeira -o fundamentalismo cristão americano- tanto quanto a tradições e costumes africanos.

Em nenhum lugar do continente, os homossexuais -homens e mulheres- enfrentam tanta perseguição quanto em Uganda. Em 9 de outubro, o "Rolling Stone", jornal editado por ex-alunos da Universidade Makerere, de Campala, onde há forte pregação cristã fundamentalista, publicou em sua primeira página uma lista dos "100 principais" gays e lésbicas do país, com fotos e endereços domiciliares e uma tarja amarela com os dizeres "enforquem-nos".

Pelo menos quatro gays foram atacados depois disso, segundo relatos de ativistas e da imprensa. Embora sua ação tenha sido muito criticada, o "Rolling Stone" repetiu a dose no mês seguinte, e, então, a Corte Suprema do país ordenou que o jornal parasse de publicar esse tipo de lista.

Uganda é um terreno fértil para missionários religiosos e tem sido um destino preferencial para evangélicos dos Estados Unidos há pelo menos uma década.

No ano passado, três pregadores evangélicos americanos visitaram Campala para uma conferência de três dias sobre "a agenda gay" e a suposta ameaça que ela representa para os valores tradicionais cristãos e africanos.

Logo depois, uma nova lei contrária aos homossexuais foi apresentada no Parlamento de Uganda, e seus autores admitiram terem sido estimulados por evangélicos. O projeto prevê punições duras e, em casos extremos, a pena de morte. A reação veio de vários continentes. O presidente Barack Obama o qualificou de "odioso", e, no começo do ano, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, se dissociou dele. Até agora, a proposta não foi votada.

A estreita relação entre a direita cristã americana e a maré de intolerância sexual em Uganda e em outros lugares da África tem sido exaustivamente investigada por Kapya Kaoma, pastor anglicano em Zâmbia, que escreveu um relatório sobre o assunto (ver, em inglês, www.publiceye.org/publications/globalizing-the-culture-wars/).

Mesmo sem a influência evangélica, a homossexualidade não é muito tolerada pelos africanos. Na África do Sul, que tem a legislação mais liberal do continente sobre direitos sexuais, inclusive tendo reconhecido os casamentos homossexuais em 2006, há casos de lésbicas sendo estupradas por grupos de homens que desejam "curá-las" da sua orientação sexual.

Recentemente, estive no Maláui, onde neste ano um casal gay foi sentenciado a 14 anos de prisão por realizar uma cerimônia de noivado. Sob pressão internacional, o presidente Bingu wa Muthariki acabou anistiando-os, após receber uma visita do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Mas, em dezenas de entrevistas com homens e mulheres do Maláui, ninguém se mostrou solidário com os acusados Tiwonge Chimbalanga e Steven Monjeza. Muitos malauianos com quem falei argumentavam que o casal não deveria ter revelado publicamente seu relacionamento.

Para os homossexuais africanos, a maior esperança de um trato mais justo talvez venha de fora da África. Com a eleição de Barack Obama para presidente dos EUA, a influência dos cristãos evangélicos, que atingira seu ápice no governo de George W. Bush, declinou substancialmente. A pressão internacional foi crucial para a libertação dos dois homens no Maláui e para impedir o avanço da legislação anti-homossexual em Uganda.

Com uma pequena ajuda do exterior, e com uma liderança mais esclarecida internamente, poderá chegar o dia em que todos os africanos se identificarão com as palavras da Constituição sul-africana, que protege os direitos de todos, independentemente de "raça, gênero, sexo, gestação estado civil, origem étnica ou social, cor, orientação sexual, idade, deficiência, religião, consciência, crença, cultura, idioma e nascimento".

1 comentários:

Fabinho disse...

Enquanto esse continente tão atrasado não avança, o que nos resta, além da ajuda que alguns puderem fazer, é rezar MUITO pelos homossexuais de lá.

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